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Capela Sra PazRodeios era, dantes, o local escolhido pelos pastores para reunirem o seu gado, para o apartarem, contarem ou examinarem, formando assim, grandes rodas de animais, que baptizaram a povoação. Certo dia, a um destes pastores apareceu, no alto onde hoje se ergue a capela, numa toca de sobreiro, uma senhora.

Dirigiu-se-lhe esta pedindo que os pastores lhe construíssem uma ermida e dela fizessem uma imagem que deveriam apelidar Nossa Senhora da Paz. Pediu ainda que, a seu lado, fosse colocado um menino e nas suas mãos tivesse uma bola do mundo.

Segredou-lhe, por fim, que quando a bola caísse o mundo acabaria. Ficaram, desde então, os devotos de Nossa Senhora da Paz incumbidos de zelar para que nada acontecesse a esta bola do mundo. Quando um dia deflagrou um incêndio na capela, logo o imaginário local, atormentado pela responsabilidade, se pôs a recear pelo que poderia acontecer ao mundo, se tal incidente havia ocorrido à patrona da paz.

No dia 12 para 13 de Maio, não se sabe de que ano, começou o fogo na capela. Estava tudo em chamas quando o povo lá chegou, a gritar, com medo que algo acontecesse à imagem. Quando entraram na capela, enegrecida pelo fumo da cera ardida, verificaram, espantados, que ao altar nada acontecera, apenas o coração de Maria ficara despedaçado e por isso foi, depois, levado para o cemitério e enterrado. No meio dos choros pela destruição verificada, a voz de uma velha clamou:

- Temos guerra, temos guerra!

Ora, foi por esta altura que as telefonias começaram a anunciar a guerra em Angola.
Tratava-se pois de um aviso de Nossa Senhora: ficou a capela destruída como Portugal: o coração de Maria despedaçou-se como o de muitas mães a quem morreram os filhos no Ultramar; as paredes da capela ficaram pretas em sinal do luto que muitas mães vestiram para sempre; o altar salvou-se como se salvaram todos os homens que da zona de Rodeios foram para o Ultramar. Nenhum lá ficou.

Batista, Graça (2001) Vila Velha de Ródão – Viagens do Olhar, Centro Municipal de Cultura e Desenvolvimento de Vila Velha de Ródão, p.206-207